15 de out de 2011

a lamina

Ele segurava a lâmina perto da pele enquanto pensava uma última vez. Aquilo era sério, não ia ter volta. Sabia que os iam lembrar dele por causa daquilo. Nunca iam esquecer.
Aproximou a lâmina um pouco mais e viu seu próprio reflexo no espelho. Era aquilo mesmo que ele queria? Sabia a resposta. Não, não era aquilo que ele queria. Mas estava fazendo por amor, por ela. Ninguém além dela ia entender aquele sacrifício. Pensou nos amigos e no que eles iam dizer dele. Será que iam respeitar sua escolha? O corpo era dele, a alma era dela, e ele estava disposto a sacrificar um pelo outro.
A lâmina chegava a tocar na pele agora. Ele tinha pensado em outras maneiras de fazer aquilo, mas a lâmina pareceu o jeito mais rápido e prático. Antigamente ele se sentiria um fraco só de pensar em fazer aquilo, mas agora estava cheio de certeza. Tinha que fazer.
E fez.
Raspou o peito a pedido da namorada. Os amigos passaram a deixar artigos com dicas de como fazer virinha cavada no parabrisa. Na hora de tomar banho depois do futebol sempre alguém levava cera quente pra sacanear. Ele sabia que virar metrossexual era um caminho sem volta e estava firme em sua decisão. Mas mesmo assim entrou na natação pra diminuir o falatório.

7 de out de 2011

Separados por um bule.

Rodolfo acorda de manhã já com aquela costumeira falta de vontade, ele sabe a merda de dia que o espera lá fora. Fez o que todo mundo faz ao acordar, levanta, lava o rosto, dá uma olhada na janela da sala pra checar se o apocalipse zumbi não estourou enquanto ele dormia.
Foi para a cozinha fazer o café. Na verdade, só esquentar o de ontem. Esquentou o café, separou e lavou porcamente o copo. "Preciso catar mais copos no bar do seu Dinga. Quebrou mais um e só sobraram 2". E se deu conta de que não tinha açúcar. Nadica de nada. E foi até a vizinha pedir açúcar.
Saiu pela porta e encontrou ela toda cheia de sorrisos no corredor. "Oi, vizinho, você tem um pouquinho de açúcar pra socorrer sua pobre vizinha?" "Eu tava indo justamente te pedir isso, Tereza. O meu acabou" "É que meu namorado passou aqui bem cedinho e colocou quase um quilo no café, parece que veio aqui só pra isso. Eu tava contando com o seu emprestado" Namorado. NAMORADO. Aquilo ecoou na cabeça de Rodolfo. A gracinha de vizinha que vinha dando bola pra ele há meses. Ele sabia que devia ter chamado ela pra sair. Agora era tarde. O cérebro de Rodolfo ainda conseguiu fazer a boca resmungar alguma coisa antes de voltar pro apartamento processando aquela nova informação. Tudo deu errado. Não era pra ser assim. A entrevista de emprego tinha sido boa, mas ele não conseguiu a vaga. Por causa disso atrasou 2 meses o aluguel, mais um mês e teria que se mudar. A bendita vizinha. O maldito namorado. O maldito açúcar.
"O açúcar. Nem tudo está perdido" Rodolfo saiu de novo, agora determinado a ajeitar alguma coisa em sua vida. Não podia fracassar em tudo. E foi com uma lança caçar o açúcar.
O seu Dinga não tinha. "Ih, rapaz. To atrasado com as compras do mês. Vou ficar te devendo essa"
Na padaria: "Não tem açúcar pra vender, o que tem aqui nós usamos e não dá pra ficar dando assim"
O supermercado mais perto ficava a 30 min de caminhada, mas Rodolfo não ia se dar por vencido. Foi até lá. Aquilo parecia o paraíso de tanto açúcar. Era como se mil Terezas estivessem ali sorrindo e dando aquele tchauzinho inocente dos encontros de elevador. Comprou um saco só, mas pagou feliz. Nem ligou pra longa caminhada de volta com aquele quilo embaixo do braço. Era o resultado da perseverança, o prêmio pela caçada.
Da esquina, viu o prédio. Só mais alguns metros e e estaria em casa. Em casa, com seu açúcar e seu café. Viu também Tereza do outro lado da rua. Linda como sempre. Pensou em alguma coisa interessante pra dizer, alguma música com açúcar na letra pra cantar. Enquanto pensava e atravessava viu um carro estacionar do lado de Tereza. Ela entrou no carro e deu o maior beijo do mundo no motorista. Pela segunda vez naquele dia a realidade ecoava na cabeça de Rodolfo. Só ficou parado ali, desarmado, enquanto o carro ia embora. Não viu o outro carro. Pegou em cheio e foi açúcar pra todo lado. Agonizava ali, agora com a certeza absoluta de que não devia ter levantado da cama de manhã.

*****

Mário acorda de manhã cheio de energia, ele sabe o dia maravilhoso que o espera lá fora. Levanta, lava o rosto, dá uma olhada no sol nascendo.
Foi para a cozinha fazer o café. Repara logo que não tem açúcar. Sem titubear, pega o carro e vai pra casa da namorada acabar com o açúcar dela. Tem um excelente dia e não morre no final.

3 de out de 2011

de onde vem, pra onde vão?

Acho que eu nunca presenciei o nascer de uma relação. Sempre que eu me dei conta ela já estava lá, não teve fecundação, não teve geração espontânea, brotamento, nada. Quando você não sabe de onde uma coisa surgiu fica difícil lidar com ela, saber o que ela come, pra onde ela vai, de qual tamanho pode ficar. E é assim que as minhas acabam, fugindo por incompatibilidade de idéias, mortas de fome, ou grandes demais pra se ter no prédio e o síndico manda eu me livrar dela. O que pega de surpresa é o momento que isso acontece. Porque você não sabe de onde ela veio, então não sabe o que funciona e não funciona pra ela. Ela começa a bolar planos de fuga quando você espera que ela se vire sozinha, vá caçar, buscar o próprio sustento. E relações não funcionam se você não der de comer exatamente o tipo de ração indicada, levar pra passear bem na hora que ela entender(é um perigo alimentar e não levar pra passear). Já teve uma que fugiu e nem deixou um bilhetinho azul. A suspeita é de que a comida não estava agradando. E não me engano mais, cedo ou tarde acabo pisando no cocô. Geralmente é cedo.