12/02/2012

troca-se problemas

Eva adorava problemas. Sério mesmo, achava um mais interessante que o outro. E adorava amostrar eles pros amigos. Talvez por isso Eva tivesse tantos amigos, pra ter mais gente pra admirar seus problemas. Eva montou uma respeitável coleção de problemas. E de amigos. Abriu até um museu pros seus problemas que valiam a pena de serem mostrados. Amigos entram de graça.
Conforme o tempo foi passando, a coleção de Eva foi aumentando. Enorme. Teve que alugar uma casinha menor na rua de baixo pra morar, já que sua casa estava cheia de problemas. E isso porque ela já tinha feito obras pra expandir o espaço pra guardar sua coleção. O que se tornou outro problema. Cada obra tinha atraso, enrolação do engenheiro, falta de material. Cada obra, um novos problemas. E a cada novo problema, mais obra pra ter onde guardar. E assim foi, a casa ocupando o terreno quase todo. O secretário de obras da cidade veio pessoalmente trazer o aviso de proibição de novas obras. Era uma honra entregar mais aquele problema ao museu que havia se tornado um grande ponto turístico daquela pequena cidade. Mas as obras violaram a lei orgânica do município e precisavam acabar.
Foi com esse novo problema que Eva decidiu que era mais simples se mudar e deixar o museu naquele terreno. Não podia mais ter problemas. Não tinha espaço. Eva então começou a pensar numa maneira de se livrar de seus problemas. Jamais poderia vender. Aqueles eram seus problemas de estimação, mas aceitaria fazer trocas. Pelo menos vai manter o museu com novidades. Só que Eva não calculou o tamanho dos seus problemas. E acabava trocando seus pequenos problemas por maiores. Eva trocava "topada no dedão" por "gravidez indesejada". Sem perceber o tamanho dos problemas. E vamos combinar que se colocarmos esses 2 problemas num ringue de gelatina acaba sendo um duelo de Davi contra Golias. Sem falar que "gravidez indesejada" depois de um tempo evolui pra "filho pra criar" e assume proporções assustadoras.
Então, o problema de espaço voltou, e dessa vez ainda maior, ou menor, já que não tinha espaço pro problema ser maior. Por sorte, o vizinho do lado do museu já não aguentava mais estacionarem em frente à sua garagem. Nem o barulho dia e noite, já que problemas não tem noção de hora e acabam te atazanando quando você menos quer. Então o vizinho aceitou trocar o problemão que se tornou sua casa pela viagem pra Tailândia que Eva ganhou de aniversário. A passagem e o hotel estavam pagos, mas não incluia café da manhã, o que não deixa de ser um problema. Então Eva conseguiu um grande espaço pros seus problemas. Na verdade, não era tanto espaço assim, porque aquele espaço já vinha com seus próprios problemas. Mas serviu e tinha espaço até pra Eva morar.
Os amigos começaram a se preocupar com Eva. Não a viam mais, ela só tinha tempo para seus próprios problemas. O museu não podia parar, as pessoas queriam ver aqueles problemas. Pessoas gostam mesmo ver problemas que não são seus, e gostam mais ainda de falar sobre os problemas dos outros. Então os amigos resolveram tirar Eva daquela situação, cada um resolveria um problema pra ela. Se reuníram e foram até o museu-casa-depósito que havia se tornado aquela aberração de guardar problemas. Chegando lá encontraram uma fila enorme de gente querendo saber de problema dos outros na entrada do museu fechado e nem sinal de Eva.
O ex-vizinho, que tinha virado amigo de Eva depois que voltou de 2 semanas maravilhosas na Tailândia, ainda tinha uma chave de reserva. Abriram a porta e se depararam com o museu vazio. Nada de problemas e ainda nada de Eva. Percorreram todas as alas e andares. Nadica de nada. Eva tinha desaparecido. Foi então que um dos amigos achou Eva caída no canto de uma ala do sub-solo. Ela contou que estava reorganizando uns problemas quando um antigo problema de estrutura da casa caiu sobre ela. E não tinha forças pra se levantar. Mas de alguma forma, o problema que caiu em cima dela não estava mais por ali. Eva disse ao amigo que sabia que era seu fim. Não conseguiria sair dali viva. Eva fechou os olhos. E abriu um enorme sorriso. Um sorriso que o amigo não via há muito tempo em Eva. Um sorriso de quem não tem problemas.

18/01/2012

O circo

Esse semestre eu entro na reta final do bacharelado em direito. E a única certeza é que se eu me formar vou ser só um bacharel em direito, mais um, como os muitos que já tem por aí. Sério, tem muito. Isso só me lembra que eu não sei o que vou fazer desse bacharelado. Tem várias opções e boas opções. Mas o que eu queria mesmo era ser Mestre do Picadeiro.
Sempre gostei de circo, sempre gostei de circo, mas me falta o talento e a disciplina pra entrar pro circo. E morando em Nova Iguaçu nunca tive a oportunidade de fugir com o circo quando criança. Tirando o fato de que eu não tenho o talento e a disciplina pra ser artista de circo, pesa também o fato de que circos respeitáveis não passam por Nova Iguaçu. Lembro que por muitos meses teve um circo local aqui no bairro, mas tinha um bode chamado Cheiroso no circo.
O circo era de um cara aqui do bairro que foi palhaço. Pelo menos diziam que ele era palhaço, nunca vi ele com um nariz vermelho e sapatos enormes. E nem ao menos esguichando água por uma flor na lapela. Jogando tortas muito menos. Acho que nem animal de balão ele sabe fazer. Mas enganou a todos por anos com a fama de palhaço. Então, aí ele tinha esse circo com o bode. Eu não cheguei a ir no circo, justamente pelo bode. Eu era novo, mas não era burro. Um circo que a atração principal era um bode não podia ser muito legal.
Agora o Mestre do Picadeiro, que é minha pretensão de cargo nessa bonita organização que é o circo. Ele é uma pessoa de sorte. Além de ter amigos legais, ele pode falar desses amigos legais toda noite pro público.
"Rapaz, eu conheço uma mulher cujos bigodes vão até os peitos. E são até bem bonitos. Os bigodes."
"Olha, vocês não vão acreditar nas coisas que esse cara que vem aí vai engolir."
E ainda por cima, o MdP não paga pra entrar no circo, PAGAM ELE pra entrar no circo. Se isso não é o melhor emprego do mundo, eu não sei o que é.
Depois que o circo fechou o bode ficou perambulando pelo bairro com outros bodes vira-latas que tinham por aqui. Faziam só coisas de bode, nunca vi nenhum deles fazendo nada que justificasse uma vaga no circo. Esse é um mundo injusto, onde um bode apadrinhado por um possível falso palhaço consegue um emprego no circo e você que sonhou com isso a vida toda, não. Acho que o bode já tinha raízes aqui desde antes do circo, apesar de que eu nunca diferenciaria ele dos outros bodes. Hoje em dia ele não bodeia mais por aqui. Deve estar cuidando de seus bodenetos e contando divertidas histórias de circo. Histórias que eu não vou poder contar pros meus netos por causa dessa máfia que existe na indústria do circo.

27/11/2011

Portas

Amadeu se sentiu perdido. Todas as casas da rua eram parecidas, tinham sido construídas da mesma maneira há muito tempo. Em algumas se notavam reformas, a pintira fora retocada em outras, mas basicamente eram iguais. E Amadeu não fazia idéia de qual casa procurava.
Amadeu não lembrava em qual casa tinha entrado ontem. Tinha bebido. Ou tinha sonhado, também pode ter sido isso. Mas era uma daquelas casas, ele sentia isso. Sabia que ali atrás de alguma daquelas portas estava a mulher que tinha conhecido ontem, ou sonhado, que seja. Era a mulher de sua vida e isso que era importante. A casa era só um detalhe e achar ela seria questão de tempo. Era ali. Amadeu não conseguia lembrar também como ela era, mas saberia quando a visse.
Amadeu entrou numa porta ao acaso, a sorte o levaria até sua amada. A sala era familiar, a mulher sentada ao sofá também. Mas seria ela? Amadeu sentiu alguma. Podia ser o destino mandando ele ir em frente ou a consciência falando pra ele correr pra porta. Correu pra porta. Não era ali que deveria ficar. O episódio se repetiu em várias casas. A sensação estranha e depois a certeza de que não era lá.
Na varanda de algumas casas Amadeu sentiu a certeza de que era naquela, mas depois se deparava com uma casa vazia. Mais estranho era olhar pela janela em certas casas e ver homens aonde ele deveria estar. Amadeu ficava chateado em toda casa em que a mulher não parecia notar que o homem que ali estava não era ele. Determinadas casas tinham até mulheres em seu lugar.
A rua agora parecia interminável com suas 2 fileiras de casas idênticas até o horizonte. Milhares de janelas mostrando pessoas felizes como quadros, e Amadeu ali sem encontrar o seu cantinho. Até que uma porta se abriu.
"Amadeu?" - perguntou a mulher à porta.
"Sim"
"Você veio me ver? - perguntou a moça enquanto abria um sorriso.
Foi então que Amadeu se lembrou de tudo. Já estivera ali mesmo, mas não na noite passada, estivera ali várias vezes com aquela mulher. Passou anos com ela. Outra vez passou meses. Uma vez entrou num dia e saiu no outro. Sempre ia e voltava. E sempre lhe parecia uma boa idéia ficar naquela casa com a mulher. Mas depois saía enxotado ou enfurecido da casa. Nunca dava certo. E depois de um tempo tudo aquilo lhe parecia como um sonho estranho pro qual ele achava que queria voltar.
"Você vai entrar?" - a mulher agora exibia uma cara de confusa.
Amadeu não pensou 2 vezes. Desceu a rua correndo e começou a abrir outras portas. Entrou na primeira casa vazia que achou. E ficou ali feliz da vida, pensando em como aquela casa era tudo o que ele precisava.

15/10/2011

a lamina

Ele segurava a lâmina perto da pele enquanto pensava uma última vez. Aquilo era sério, não ia ter volta. Sabia que os iam lembrar dele por causa daquilo. Nunca iam esquecer.
Aproximou a lâmina um pouco mais e viu seu próprio reflexo no espelho. Era aquilo mesmo que ele queria? Sabia a resposta. Não, não era aquilo que ele queria. Mas estava fazendo por amor, por ela. Ninguém além dela ia entender aquele sacrifício. Pensou nos amigos e no que eles iam dizer dele. Será que iam respeitar sua escolha? O corpo era dele, a alma era dela, e ele estava disposto a sacrificar um pelo outro.
A lâmina chegava a tocar na pele agora. Ele tinha pensado em outras maneiras de fazer aquilo, mas a lâmina pareceu o jeito mais rápido e prático. Antigamente ele se sentiria um fraco só de pensar em fazer aquilo, mas agora estava cheio de certeza. Tinha que fazer.
E fez.
Raspou o peito a pedido da namorada. Os amigos passaram a deixar artigos com dicas de como fazer virinha cavada no parabrisa. Na hora de tomar banho depois do futebol sempre alguém levava cera quente pra sacanear. Ele sabia que virar metrossexual era um caminho sem volta e estava firme em sua decisão. Mas mesmo assim entrou na natação pra diminuir o falatório.

07/10/2011

Separados por um bule.

Rodolfo acorda de manhã já com aquela costumeira falta de vontade, ele sabe a merda de dia que o espera lá fora. Fez o que todo mundo faz ao acordar, levanta, lava o rosto, dá uma olhada na janela da sala pra checar se o apocalipse zumbi não estourou enquanto ele dormia.
Foi para a cozinha fazer o café. Na verdade, só esquentar o de ontem. Esquentou o café, separou e lavou porcamente o copo. "Preciso catar mais copos no bar do seu Dinga. Quebrou mais um e só sobraram 2". E se deu conta de que não tinha açúcar. Nadica de nada. E foi até a vizinha pedir açúcar.
Saiu pela porta e encontrou ela toda cheia de sorrisos no corredor. "Oi, vizinho, você tem um pouquinho de açúcar pra socorrer sua pobre vizinha?" "Eu tava indo justamente te pedir isso, Tereza. O meu acabou" "É que meu namorado passou aqui bem cedinho e colocou quase um quilo no café, parece que veio aqui só pra isso. Eu tava contando com o seu emprestado" Namorado. NAMORADO. Aquilo ecoou na cabeça de Rodolfo. A gracinha de vizinha que vinha dando bola pra ele há meses. Ele sabia que devia ter chamado ela pra sair. Agora era tarde. O cérebro de Rodolfo ainda conseguiu fazer a boca resmungar alguma coisa antes de voltar pro apartamento processando aquela nova informação. Tudo deu errado. Não era pra ser assim. A entrevista de emprego tinha sido boa, mas ele não conseguiu a vaga. Por causa disso atrasou 2 meses o aluguel, mais um mês e teria que se mudar. A bendita vizinha. O maldito namorado. O maldito açúcar.
"O açúcar. Nem tudo está perdido" Rodolfo saiu de novo, agora determinado a ajeitar alguma coisa em sua vida. Não podia fracassar em tudo. E foi com uma lança caçar o açúcar.
O seu Dinga não tinha. "Ih, rapaz. To atrasado com as compras do mês. Vou ficar te devendo essa"
Na padaria: "Não tem açúcar pra vender, o que tem aqui nós usamos e não dá pra ficar dando assim"
O supermercado mais perto ficava a 30 min de caminhada, mas Rodolfo não ia se dar por vencido. Foi até lá. Aquilo parecia o paraíso de tanto açúcar. Era como se mil Terezas estivessem ali sorrindo e dando aquele tchauzinho inocente dos encontros de elevador. Comprou um saco só, mas pagou feliz. Nem ligou pra longa caminhada de volta com aquele quilo embaixo do braço. Era o resultado da perseverança, o prêmio pela caçada.
Da esquina, viu o prédio. Só mais alguns metros e e estaria em casa. Em casa, com seu açúcar e seu café. Viu também Tereza do outro lado da rua. Linda como sempre. Pensou em alguma coisa interessante pra dizer, alguma música com açúcar na letra pra cantar. Enquanto pensava e atravessava viu um carro estacionar do lado de Tereza. Ela entrou no carro e deu o maior beijo do mundo no motorista. Pela segunda vez naquele dia a realidade ecoava na cabeça de Rodolfo. Só ficou parado ali, desarmado, enquanto o carro ia embora. Não viu o outro carro. Pegou em cheio e foi açúcar pra todo lado. Agonizava ali, agora com a certeza absoluta de que não devia ter levantado da cama de manhã.

*****

Mário acorda de manhã cheio de energia, ele sabe o dia maravilhoso que o espera lá fora. Levanta, lava o rosto, dá uma olhada no sol nascendo.
Foi para a cozinha fazer o café. Repara logo que não tem açúcar. Sem titubear, pega o carro e vai pra casa da namorada acabar com o açúcar dela. Tem um excelente dia e não morre no final.