18 de ago de 2013

Cartas

Eduardo combinou um encontro com sua antiga paixão de escola. Ela não sabia o que ele sentia, mas ele sabia bem. Nunca teve coragem de se declarar, sequer arriscar uma conversa mais longa. No máximo, trivialidades meteorológicas. Ele não tinha noção de como ela estava. Fazia 10 anos que não se viam. Nem a cor do cabelo ele tinha certeza. Nos seis meses que ele teve pra admirar ela, o cabelo mudava de cor constantemente, mas ele achou que esperar uma mulher de cabelo azul, laranja ou cor de rosa era bobeira.
O mais perto de uma conversa que Eduardo conseguiu foi o bilhete disfarçado na mochila dela. Ficou desesperado quando soube da trasferência de escola. Ia pra casa da avó em outra cidade, levado pelo divórcio dos pais. Colocou o endereço da avó no bilhete e não assinou. Só disse que queria ficar perto dela, nem que fosse assim. Não se declarava completamente, apenas tentava ser amigável. Era muito mais fácil no papel.
Demorou pra ela responder o bilhete, alguns duros meses. Eduardo demorou pra se acostumar com a nova casa, nova escola. A carta mudou tudo isso. Dizia que sua amada estava bastante curiosa por ter um admirador, também comentava brevemente uma obsessão por romances de mistério e suspense. O que Eduardo tanto esperava, a carta trazia. Um endereço de resposta e uma proposta para se corresponderem. Eduardo colocou a resposta no correio naquele mesmo dia.
Se corresponderam por uma década. Eduardo leu sobre frustrações amorosas, decepções românticas e tragédias afetivas. Parecia que a garota tinha ficado muito boa em ter o coração partido. E Eduardo acompanhava tudo covardemente pelo simples medo de rejeição. Pensava em ir visitar ela, bater em sua porta com um buquê e o coração na mão. Mas só conseguia escrever. E nem nas cartas foi capaz de dizer que estava ali pra ela. Uma cidade de distância, e uma eternidade pra tomar coragem.
A idéia de marcar o encontro foi mais dela do que dele. Ela já havia insinuado a idéia de um encontro antes, geralmente rechaçada por Eduardo. Mas ambos haveriam de concordar que não se descrever fisicamente depois 10 anos tornava um desafio se reconhecer. Um desafio para ele, na verdade. Ela ainda não sabia que tinha estudado com seu admirador.
Eles marcaram numa praça. Mas nada mais específico. Ambos estavam receosos. 4 bancos na praça. Eduardo decidiu observar.
No banco A chegou uma menina de bicicleta. Eduardo lembrou de 2 maravilhosos meses com cartas quase diárias quando sua amada ficou de cama por uma perna quebrada. Sentiu pela perna, mas adorou as cartas. E depois do acidente, ela (que já não sabia andar muito bem) jurou nunca mais subir numa bicicleta. E Eduardo ficaria sabendo se ela mudasse de idéia. Não era ela.
No banco B chegaram 2 meninas. Eduardo sabia que ela não iria acompanhada. Era tímida também, e as amigas achariam bobeira ter trocado cartas com um desconhecido por tanto tempo. Não era ela.
No banco C sentou uma menina nada simpática que espantou um gatinho que se coçava nas pernas do banco. Sua queridinha amava animais. Não era ela.
No banco D uma menina tropeçou antes de chegar no banco. Ela sentou ao lado dum escritor de bronze que sentava naquele banco há mais de 30 anos. Logo roçou seus dedos na mão que o escritor apoiava no banco. E também brincou com o gatinho enxotado que fora ali procurar abrigo. Definitivamente, era ela. Tinha que ser ela.
Tomou coragem pra se aproximar, e desde então, nunca mais conseguiu ficar longe dela.

17 de ago de 2013

O Senador

Já tá bom o suficiente, dizia Bira. Mas seu assessor insistia em mais prática, mais aulas. Não, to pronto, cara. E foram.
Bira tinha sido abordado há 7 meses por um sujeito que se dizia representar o senador Otácio Café. Nunca ouvi falar dele e nem de você, mané. E tu tá atrapalhando minha cerveja.
Acontece que Otácio veio numa comitiva com outros senadores e politiquetes de menor cacife que iria fiscalizar as obras da copa pro ano que vem, quando viu Bira descarregando um caminhão de areia com mais 3 operários. Após o susto inicial, Otácio mandou um assessor seguir Bira e checar os antecedentes pra ver se dava pra contar. Tirando umas dívidas no bar e 2 prestações atrasadas de um fogão das Casas Bahia, decidiram que Bira era um cara bem decente.
Ficou estabelecido que Bira se passaria por Otácio em compromissos oficiais e aparições públicas por Otácio, enquanto este tirava férias num local paradisíaco  e deserto. E as despesas de viagem ficariam pagas por 2 funcionários fantasmas no gabinete. Então eu só tenho que fingir que sou bacana, falar afrescalhado e posso levar a vida do senador? Amigo, a gente devia ter se conhecido bem antes...
Não tinha família pra sentir falta dele. Os amigos sabiam que ele não era de ficar muito tempo no mesmo lugar. Posso sumir e ninguém vai procurar, cara. Fica tranquilo.
Bira teve aula com professores de boas maneiras, de inglês. Decorou a biografia do Senador. Era recém-viúvo, sem filhos. Ninguém muito próximo capaz de reconhecer maneirismos que cada indivíduo tem. Se aprendesse a se comportar como bacana e falar com demagogia, ninguém desconfiaria e poderia ter a vida que sempre mereceu.
O primeiro compromisso era com a liderança do partido, pra discutir o ano que entrava. Não podiam bobear porque era eleição. Pô, é só eu falar aquelas frases de fresco  que a gente treinou e tá tudo certo. Todo político é cheio de frase feita mesmo.
Já tinha imaginado tudo na cabeça, compromissos eleitorais, umas sessões num auditório grande pra dizer sim ou não pras leis, cortar faixa de obra, abraçar bebês e beijar mamães. Tudo que um político faz. O resto do tempo era boa vida.
A reunião foi um sucesso. Impressionou tanto a cúpula que fizeram grandes planos pra ele. Era jovem, tinha um grande futuro pela frente. O sobrenome ajudava, o avô do senador tinha sido um grande radical moderado durante a ditadura e ficou bem quisto por ambos os lados. O que seu neto carismático não seria capaz então? Falavam em presidência dali a 2 mandatos. E todos comentavam que nunca viram o senador tão simpático e eloquente.
Bira era só sorrisos. Bom ator, decorou bem as falas e sabia improvisar. Também sabia agradar, deixou em todos a certeza que ali estaria o elo da vitória do partido. Quase não precisou do assessor soprando no ponto eletrônico.
Apertou a mão de todos, faziam questão. O presidente do partido, importante deputado federal, vinha em sua direção pra ter uma palavrinha a sós com ele. Ganhou convite para um jantar com a família, promessa de vaga numa comissão importante dentro do senado, ministério se ele quisesse. Tudo certo, era só dar adeus e a farsa ganharia respaldo. Sim, Deputado, é uma honra jantar com vossa excelência. Podemos trocar telefone? O seu é Claro? Tenho bônus pra Claro quando recarrego mais de 5 reais. Foi desmascarado ali mesmo.

6 de jan de 2013

2013


Tentar fazer mais:
1- Ler
2- Escrever

3- Aprender

Tentar não fazer:
1- Se meter onde não foi chamado
2- Ser relapso
3- Ter medo do Google

Fazer todos os dias:
1- Assistir um filme novo/ler uma coisa nova