30 de out de 2009

Conversas do Cárcere II: A Facção

-Tava aonde?
-Saí com umas amigas.
-Que amigas?
-Amiga nova, da academia. Você não conhece.
-Hmm.
-E você? Fez o quê?
-Assisti televisão.
-E quanto foi? Ganhamos?
-Jogamos melhor mas eles empataram no finzinho.
-Ah, que pena. Você sabe que eu fiquei torcendo.
-Ficou mesmo?
-Lógico que sim. E porque dessa cara?
-Quando a gente casou você disse que não tinha time. Que nem ligava pra futebol.
-Tá, e?
-Sempre quis te levar pra ver jogo. Você reclamava da violência, que podia dar briga. Nunca nem quis colocar a camisa do Botafogo pra ver jogo em casa.
-Coração, você tá estranho. Conta pra momô o que foi.
-Eu te vi. Já sei de tudo.
-Tudo o quê? Do que você tá falando?
-A Globo passou o jogo.
-Passou, foi?
-É, passou. E mostraram uns lances da torcida. Eu tenho que descobrir pela televisão que você foi no jogo com outro. Acho até que dá pra te perdoar, não dá pra jogar 7 anos de casado assim pela janela. Mas pior que a traição, pior que ver você abraçada com o Paulo foi ver você no meio da torcida do Flamengo. No meio daquela Nação sei-lá-o-quê e da Raça ruim.
-Calma. Vamos conversar. Aconteceu, mas acabou. A gente tinha saído uma vezes mas não teve nada de mais. Eu só fui no jogo pra acabar tudo.
-Dane-se você e dane-se o Paulo. Já disse que isso eu consigo perdoar.
-Então porque você tá assim?
-Você tava com a camisa do Flamengo. *soluça*
-Eu ia terminar com ele. Falei que te amo, que nosso casamento tava melhor. Coloquei a camisa pra agradar, pra ajudar ele a receber a notícia. Eu quero você e o Botafogo. Não suporto o Flamengo, nem sei quem joga lá.
-Sua Falsa. Você tava cantando o hino. E com a mão no peito... COM A MÃO NO PEITO, MARIA ANTÔNIA!!!

24 de out de 2009

Conversas do Cárcere I: Carícias na Cela

-Me bate.
-Oi?
-Bate. Dá um tapa, sei lá. Mas me bate.
-Eu não vou bater em você.
-Não é bater de verdade, dá um tapa, só pra ficar ardido e um pouco vermelho. É gostoso, vai.
-Não.
-Tá com medinho, é?
-Não to com medo, mas não foi assim que Cássia me ensinou.
-Quem é Cássia?
-Minha mãe.
-O que tem sua mãe? Só pedi pra você me dar um tapa.
-Mesmo assim. Não bato em mulher. Acho falta de respeito.
-Vários namorados já fizeram isso. Você é o único que deu chilique.
-Eu não vou bater em você.
-Muito cheio de frescura. Se fosse outro já tinha batido.
-Olha, eu não bato em mulher. É simples.
-Tá bom. Mas você não sabe o que tá perdendo.
-Como?
-Vários antes de você bateram e todos gostaram.
-Eu não sou nenhum deles.
-Mas deveria ser, custa nada experimentar e me satisfazer ao mesmo tempo.
-Hahahaha, isso te satisfaz?
-E como, dá uma sensação boa na pele. Não quero que você deixe marca ou roxo, só que dê uma esquentadinha. Garanto que vai gostar.
-Tem certeza disso?
-Claro, pode ir com vontade. Não muito forte, eu preciso trabalhar cedo amanhã.
-Ainda não sei se isso é legal. Não me parece certo.
-Se você parasse com a lenga-lenga e batesse de uma vez ia saber se é legal, se é certo, se é direito, esquerdo. Bate logo.
-Calma. Eu tenho que pensar. Não é de uma hora pra outra que se resolve bater em uma mulher. Ainda mais eu, que tive criação católica e tradicional.
-Querido, você já me cansou. Não quero mais. Vamos terminar desse jeito mesmo.
-Mas já? Ainda nem tive tempo de pensar.
-Agora não quero mais, passou a vontade. Desse jeito aqui tá bom, termina aí que eu tenho que ir.
-Espera.
-Que foi?
-Essa história de bater me deixou pensando.
-Hum...
-A minha ex-mulher reclamava bastante que sempre era a mesma coisa. Que parecia um robô programado.
-Você devia ter batido nela.
-Talvez, talvez...
-Não interessa agora, já perdi o clima, bem.
-Espera.
-Que foi?
-Eu ainda não tenho certeza.
-Então eu vou embora.
-Espera.
-Ihhh, sei não.
-Vamos aos poucos, eu tive uma idéia pra começar.
-E qual é essa sua brilhante idéia?
-Me bate você. E forte.